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Câncer
14/03/09
Participo de um Grupo de discussão chamado “O Lado Oculto da Mídia” e recebo muitas mensagens interessantes. Uma delas foi sobre um médico italiano que dizia ter encontrado a cura para o câncer. Como no grupo temos membros da área médica, fizemos um debate legal sobre o assunto. Acompanhe abaixo o texto de Pedro Schuch Schulz, resultado das discussões:
Um tumor começa a partir de uma célula que perdeu seus mecanismos reguladores, isso faz com que ela (e todas as células em que ela se dividir) fique em mitose indefinidamente, produzindo depois de algum tempo (extremamente variável, tem câncer que cresce em poucos meses, outros demoram até uma década) uma massa. Conhecemos muitas alterações que levam ao câncer, sabemos exatamente, por exemplo, a ordem exata das mutações das células da mucosa do cólon que levam ao aparecimento de um adenocarcinoma. Essas mutações, normalmente, são em genes chamados “reguladores de tumores”, que fazem um policiamento da célula e do DNA e ligam uma sequência de apoptose (“morte programada’) caso haja algo de errado na célula, por exemplo, após uma mitose comum. Fatores que aumentam a taxa de replicação celular podem (mas nem sempre) aumentar a chance de se desenvolver um câncer. Outros fatores estressantes (fumo, infecção viral, radiação, inflamação crônica, etc) estão normalmente associados para causar essas alterações estruturais na célula. A diferenciação de um tumor benigno para um maligno está na capacidade desse último de invadir os tecidos adjacentes, lançando metástases (que não deixam de ser pequenos tumores) pela via linfática e sanguínea, enquanto que um tumor benigno cresce dentro de uma cápsula e causa danos somente pelo “efeito de massa”, podendo ser ressecado facilmente em cirurgia (nem sempre, p.ex. os tumores cerebrais.).
Para se diagnosticar qualquer tumor é necessário que sejam VISTAS as células alteradas ao microscópio, daí o absurdo em se afirmar que o câncer seria um fungo, uma vez que VEMOS todos os dias as células do tumor e elas são as nossas células. Para ver essas células, se faz uma biópsia – do grego, ver a vida – que pega (de diferentes maneiras) um pequeno pedaço do tecido tumoral e se vê o tumor no microscópio, muitas vezes são usados métodos imunohistoquímicos, que diferenciam os tumores (principalmente quando as células perdem as características que as diferenciam morfologicamente) de acordo com marcadores moleculares intracelulares.
Um câncer pode levar a morte de uma pessoa de várias maneiras. Pelo efeito compressivo da massa sobre as estruturas adjacentes (vasos sanguíneos, outros órgãos, etc), pela invasão dos tecidos, pelas síndromes paraneoplásicas (que são uma série de diferentes alterações que o tumor pode causar em hormônios, eletrólitos e outras coisas no corpo, mas não são tão comuns e estão mais associadas a alguns tipos específicos de tumor) e pelas metástases, que é a disseminação a distância do tumor, podendo invadir o fígado, cérebro, pulmões, ossos (esses mais comumente, mas elas podem ir pra quase qualquer lugar) e causando a falência desses órgãos.
Na imensa maioria dos casos, o único tratamento curativo é a cirurgia (a quimioterapia cura alguns tipos de leucemias, linfomas, e outros), onde se resseca o tumor e uma borda (a margem de segurança) de tecido normal. A quimio e radioterapia são medidas complementares (que evitam que alguma célula residual se desenvolva após a cirurgia, ou diminui o tamanho do tumor antes da operação, etc.) ou paliativas (quando não se pode mais curar e o que temos que fazer a permitir que o doente viva o máximo de tempo possível com a melhor qualidade de vida possível).
O câncer é a segunda principal causa de morte nos países ditos “desenvolvidos” e também no Brasil (dito em desenvolvimento, não?), ficando atrás somente das doenças cardiovasculares. Cada vez mais temos meios de diagnosticar as lesões em fases iniciais onde a taxa de cura é muito alta, mas, mesmo assim, é uma doença terrível e que continua a assombrar a população.
Claro que isso é uma explicação bem genérica, espero que ajude a elucidar alguns pontos, mas lembrem-se que as informações aqui não se aplicam a todos os tipos de tumores.
Por fim, pra enterrar de vez o charlatanismo do médico italiano “fungo é branco, câncer é branco, logo fungo = câncer” (esse cara tem outras falácias primárias de argumentação), deixo duas imagens, uma da cândida que é o fungo que ele afirma que é o câncer e outra de um adenocarcinoma de cólon (ou seja, um câncer de verdade), para vocês mesmos tirarem suas conclusões como patologistas
Não reparem na coloração, que é dada pelos corantes, mas sim nas diferenças morfológicas que são absurdas!

Cândida

Adenocarcinoma
Um grande abraço,
Pedro Schuch Schulz
PS. Referência das imagens, wikipedia e google.

